Em Frieren, existe uma magia que não mata dragão, não derruba castelo, não decide batalha nenhuma. Ela só faz um campo de flores nascer do chão. E, ainda assim, é a magia mais disputada da série — Flamme, Himmel, Frieren: cada um a escolheria como a favorita, cada um por um motivo diferente. Nenhum desses motivos tem a ver com poder. Todos têm a ver com memória.
Acho que todo mundo carrega pelo menos uma “magia de campo de flores” própria. Uma coisa pequena, sem nenhum prestígio especial por fora, que por dentro guarda um mundo inteiro. Eu tenho duas.
A primeira é Gladiador.

Não é só um bom filme pra mim — e ele é um bom filme, um dos melhores que já se fez. Mas o que Gladiador carrega é outra coisa: é a lembrança de assistir a ele de novo, e de novo, e de novo, ao lado do meu pai. A gente sabia as falas. Eu sabia as minhas partes, ele sabia as dele, e às vezes a gente simplesmente recitava o filme junto, como quem recita uma oração que já não precisa mais da tela pra existir.
Meu pai se foi. E hoje, quando esse filme passa, ele não é só um filme. É a lembrança dele sentado do meu lado. Mas talvez seja mais do que isso — talvez seja também um tipo de conforto, porque tem uma frase naquele filme, a mesma que Máximo diz sobre reencontrar quem ele ama do outro lado: “meu pai já está esperando por mim.” E eu gosto de pensar que é assim. Que ele já está esperando. Que ainda não é a minha hora, mas que, quando for, é ele quem vai estar lá primeiro, do outro lado do campo.
Gladiador virou minha magia de campo de flores porque, como a de Frieren, ela não precisa de mais ninguém pra ter sentido. Ela só precisa ser lembrada.
A segunda é mais simples: jogos antigos.
Não é nostalgia por serem os melhores jogos que existem — muitos nem eram tão bons assim, sejamos justos. É nostalgia por uma vida que era mais fácil. Quando eu jogava aqueles jogos, criança, eu não tinha contas, prazo, responsabilidade, perda. Voltar a eles não é querer o jogo de volta. É querer, por alguns minutos, sentir de novo a ausência de dificuldade que eu tinha naquela época, sentir o que era não ter nada pesando.
Talvez seja isso que toda magia de campo de flores realmente faça: ela não muda o presente. Ela só abre uma fresta pra dentro de um tempo em que as coisas doíam menos, ou em que a pessoa que a gente ama ainda estava do nosso lado.
Uma das lembranças mais fortes que tenho é com Final Fantasy 10, tenho um carinho por ele porque foi o último jogo que joguei antes de entrar no estágio que fiz durante a faculdade, a partir daí a vida foi só estudar e trabalhar.
Frieren guarda a dela numa floresta, com um menino assustado que virou herói. Eu guardo as minhas num filme decorado com meu pai e em jogos. Diferentes personagens, diferente história — o mesmo tipo de magia.
Qual é a sua?
Por Yuri Ribeiro
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